CAMP SBC

CAMP SBC – Construindo uma cultura da participação

Entre 1991 e 2000, o Grande ABC perdeu 84,58 mil empregos na área industrial e, destes, 39,4% foram perdidos em São Bernardo do Campo, maior município da região (Fonte: Fundação SEADE).

“A partir dos anos 80, e mais acentuadamente dos anos 90, a euforia deu lugar às mobilizações sociais, demissões em massa e redução na oferta de trabalho em função tanto das políticas econômicas como do redesenho técnico e administrativo das plantas industriais. A partir de 1998, o tempo médio para nova colocação em emprego, passou de 30 para 50 semanas. Mesmo assim a população do município continuou a crescer, ainda sob intenso fluxo migratório.”
(Plano de Ação Política, CAMP SBC)

A alta taxa de desemprego dos chefes de domicílio, fruto dessa mudança no perfil socioeconômico da região nas últimas décadas, fragiliza as famílias, que são obrigadas a mobilizar outros membros para garantir a manutenção da casa: pais, mães e filhos são levados a um mundo do trabalho nem sempre formal e por vezes em relações trabalhistas precarizadas.

No caso dos jovens, segundo dados da própria prefeitura, a cidade possui cerca de 150 mil com idades entre 14 e 24 anos, boa parte dos quais sem acesso a programas de qualificação profissional ou de inserção no mercado de trabalho e geração de renda.

É neste contexto que o CAMP SBC vem desenvolvendo suas atividades com foco no atendimento de jovens e adolescentes através de seu programa de aprendizagem.

“Pela carência de programas direcionados a adolescentes e jovens para inserção no mercado de trabalho, o CAMP SBC possui um grande reconhecimento da comunidade possuindo um número elevado de demanda reprimida a cada processo de seleção. O CAMP SBC atende adolescentes e jovens da região do Grande ABC, sendo a maioria moradores de São Bernardo do Campo em áreas de vulnerabilidade social, onde destacamos os Bairros do Alvarenga e Montanhão. O jovem é assistido nos âmbitos (educacional, psicológico, social e familiar).”
(Plano de Ação Politica, CAMP SBC)

Porém, e justamente por conta dessas transformações no cenário social e econômico da cidade, o CAMP SBC viu a necessidade de passar a se articular com outras organizações e frequentar os espaços de representação formal da cidade.

“As mudanças de contexto no cenário econômico e social impactaram a atuação do CAMP SBC, motivando para a participação nas políticas voltadas aos direitos dos jovens e adolescentes, principalmente por meio da representação nos Conselhos Municipais de Direitos e Assistência Social.”
(Plano de Ação Política, CAMP SBC)

“O CAMP SBC também participa em espaços onde se debate a questão da aprendizagem, tendo em vista tratar-se de uma premissa e um dos focos de atuação da organização. Um desses espaços é o Fórum Paulista de Aprendizagem Profissional, onde o CAMP SBC possui o papel de proponente, bem como disseminador da experiência e resultados obtidos.”
(Plano de Ação Política, CAMP SBC)

Tanto esse seu foco em programas de aprendizagem, quanto seu envolvimento com os conselhos municipais, contribuiram no sentido de que a organização lançasse sua atenção para um outro desafio, que acaba impactando diretamente seus atendimentos: a qualidade do ensino público. Afinal, boa parte dos jovens que chegam aos programas da organização são vítimas do péssimo nível de ensino das escolas públicas.

Segundo dados do INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional) de 2009, do Instituto Paulo Montenegro, apenas 40% dos jovens entre 15 e 24 anos podem ser considerados plenamente alfabetizados. 38% não ultrapassam um nível básico de alfabetização e 19% são aqueles num nível rudimentar. E é claro que essas dificuldades com escrita, leitura e habilidades matemáticas (fatores levados em consideração pelo indicador) vão impactar no processo de qualificação para o trabalho desses jovens.

Como abordar esse desafio?

A escolha feita pelo CAMP SBC foi a de envolver a comunidade com a escola, apostando que essa articulação e integração podem melhorar a qualidade de ensino. Daí o seu plano de ação política, apoiado pelo C&T, visar a democratização da gestão escolar, como, aliás, está previsto na LDB, incentivando uma cultura de participação comunitária na vida da escola.

“O plano propõe um conjunto de ações políticas, resposta da organização CAMP SBC à crescente precarização do ensino médio, evoluindo da atuação interna para o envolvimento e mobilização das pessoas e instituições afetadas pela política educacional (escola pública, educadores, conselhos, comunidade, alunos e famílias), realizando encontros, criando espaços e estratégias para ampliar o alcance das ações.”
(Plano de Ação Política, CAMP SBC)

Como chegar a este objetivo num nível municipal depende de muitas articulações, debates e total envolvimento do poder público, o CAMP focou seus esforços na E E Drº José Gonçalves de Andrade Figueira, no Jd. Represa, periferia de São Bernardo, criando um laboratório dessa experiência de democratização da gestão escolar.

“A princípio nós conversamos com duas escolas, mas a diretora de uma delas, sabendo do trabalho do CAMP, perguntou se eles teriam algum benefício em relação ao acesso dos alunos aos programas do CAMP. Isso não é possível, pois temos uma demanda muito grande de jovens e um processo seletivo bastante concorrido aqui. Daí nós acabamos realizando o trabalho com essa outra escola, lá do Jd. Represa.”
(Neiva Cunha, CAMP SBC)

“A diretora da Escola Gonçalves abriu as portas da escola para nós, fizemos uma série de reuniões, conversamos com os pais e eles ficaram super animados. Também conversamos com a UBS (Unidade Básica de Saúde), com a GCM (Guarda Civil Municipal), com a Associação de Moradores do bairro, até na rádio comunitária nós fomos e falamos, eu e a Nádia. Acabamos ficando superconhecidas lá.”
(Neiva Cunha, CAMP SBC)

“Estava indo tudo muito bem, teatro com os alunos, as oficinas com a participação dos conselhos, a articulação com os pais e a comunidade, participamos do HTPC dos professores, fomos conhecer a experiência da cidade de Itapeva …”
(Neiva Cunha, CAMP, SBC)

Mas, no meio do caminho tinha uma diretoria de ensino, tinha uma diretoria de ensino no meio do caminho, tinha uma diretoria de ensino, no meio do caminho tinha uma diretoria de ensino.

“Recebemos um contato da Diretora que relatou que a Supervisora de Ensino Sra. Esther Castelano da Silva Passeto solicitou a suspensão das atividades da parceria até ser realizada uma análise sobre essa ação.”
(Relatório do plano de ação política, CAMP SBC)

“E aí aconteceu da supervisora de ensino ir até a escola e ver tudo aquilo que a gente estava fazendo. Nós pensávamos que estava tudo certo, que a diretora da escola tinha acertado a questão do nosso trabalho, da nossa parceria com a escola, com a diretoria de ensino e que estava tudo certo. Mas não. A diretora mesma disse algum tempo depois que não tinha feito esse trâmite institucional.”
(Neiva Cunha, CAMP SBC)

“Definimos que o CAMP SBC solicitará uma reunião na Diretoria de Ensino com a Dirigente Regional de Ensino – Profa. Suzana Ap. Dechechi de Oliveira na próxima semana para novamente explicar sobre o Plano de Ação Política e ajustá-lo, caso necessário, para que o projeto possa dar continuidade nas ações já planejadas. Será também enviado ofício do Presidente do CAMP SBC à Diretoria Regional de Ensino. Ação que ficou inicialmente sob a responsabilidade da Diretora da Escola e não foi realizada.”
(Relatório do plano de ação política, CAMP SBC)

As atividades previstas tiveram que ser realizadas em outros espaços da comunidade. A resposta ao ofício nunca veio.

“Em dez/2011 fizemos contatos com os líderes do Jd. Represa para uso dos espaços para aplicação das oficinas com as famílias. Apesar de abrirem as portas para o CAMP SBC, e devido a proximidade do ano eleitoral, a discussão político partidária se evidenciou muito mais do que a proposta de trabalho com a escola.”
(Relatório do plano de ação política, CAMP SBC)

“Fizemos um contato no dia 10/jan/2012 (terça-feira) com a gestão da Escola José Gonçalves do Jd. Represa e a diretora Cirlene, nos esclareceu que a DRE (Diretoria Regional de Ensino) não irá responder o ofício enviado pelo CAMP SBC.
Ela também explicou que quando a supervisora, na visita de monitoramento da unidade, comunicou verbalmente a suspensão das atividades da parceria CAMP SBC e escola, a diretora solicitou que o pedido fosse feito por escrito, o que deixou a supervisora ficou bem incomodada.”
(Relatório do plano de ação política, CAMP SBC)

Mesmo assim, o trabalho com a escola trouxe aprendizados e também evidências sobre alguns dos porquês de, na média, a qualidade do ensino público ser como é, ruim.
Já no que diz respeito à participação do CAMP SBC no Caminhos e Trilhas …

“Para nós do CAMP SBC foi um aprendizado muito grande ter participado das capacitações em políticas públicas que a gente teve com o C&T. Foi essa capacitação que nos deu condições de partir para a realização de ações externas a organização.”
(Neiva Cunha, CAMP SBC)