Instituto Aliança: A sistematização presente em todo o processo

por Cínthia Sento Sé

Criado para gerir o projeto Aliança com o Adolescente pelo Desenvolvimento Sustentável do Nordeste, o Instituto Aliança teve sua base metodológica forjada na experiência da Fundação Odebrecht, onde se originou e de onde saíram as suas principais gestoras. Assim, a organização nasce influenciada por aprendizados anteriores e reafirma o compromisso com a sistematização da sua prática.

“Na Fundação, adotávamos a atual estrutura: desenvolver um projeto piloto, avaliar, sistematizar e disponibilizar. Então isso já estava em nosso DNA. Acredito que a maior contribuição da equipe do Instituto Aliança para este processo é a incorporação da sistematização à prática cotidiana, é desenvolvê-la como processo”, afirma Ilma Oliveira, coordenadora pedagógica em nível nacional da área de inserção socioprodutiva, com foco na inserção de jovens no mercado de trabalho formal.

Ilma – que ainda coordena a área de direitos humanos e é uma das diretoras do Aliança – defende que a sistematização garante a qualidade, quando o projeto ganha escala. “A sistematização deve ser um marco orientador e as inovações, discutidas caso a caso. Se a gente assume como prática abandonar o que foi criado, não sai do lugar”, afirma.

Os desafios da replicação em larga escala são a nova fronteira da sistematização do Aliança. O Projeto Condomínio Digital acaba de ser adotado como política pública em escolas profissionais e regulares do Estado do Ceará. Cerca de 60.000 alunos estarão em contato com a metodologia que já deu certo em pequena escala.

No bate-papo disponível no link abaixo, Ilma fala – entre outros temas – sobre como a sistematização contribuiu para a transformação do projeto em política pública e quais são os desafios embutidos nessa conquista.

Entrevista com Ilma Oliveira

A combinação de avaliação externa e sistematização interna garante a qualidade de um projeto ou programa que visa ganhar escala. “E nós acreditamos que é importante considerar a possiblidade de incidir ou transformar-se em política pública desde a fase de elaboração do programa”, afirma Ilma Oliveira, diretora do Instituto Aliança, referência em sistematização.

Leia mais sobre a visão do Aliança sobre o tema na entrevista abaixo.

Aracati – Que sinais revelam que está na hora de sistematizar uma experiência?

Ilma Oliveira – É hora de sistematizar quando o projeto ou programa tem resultados sólidos, validados por avaliação externa. São eles que vão dar segurança ao discurso da sistematização.

Quando a sistematização é feita sobre uma base não amadurecida, a organização não consegue sustentar seu discurso. Por isso, avaliação e sistematização devem andar juntas: é o olhar externo que vai apontar a validade de algumas práticas ou os pontos que precisam ser revistos.

A – Por outro lado, o Instituto Aliança fala em sistematização em processo…

IO – Sim, quando desenvolvemos um programa ou um projeto, já temos um olhar para a sistematização em processo, pensando nas possibilidades de aprimoramento do trabalho e da disponibilização para outros contextos. A sistematização em processo é a base da sistematização final, que será feita lá adiante, após a avaliação de resultados.
Eu sempre digo que a cultura da avaliação e sistematização tem que estar em todos os membros da equipe. Então nossos profissionais já são contratados sabendo que a sistematização é uma das funções.

A – Então a equipe faz a sistematização em processo e um consultor cuida da sistematização final?

IO – Nosso trabalho de sistematização é 100% interno. Já contratamos consultores externos no passado, mas a alma do processo se perde neste formato. Por isso, estamos sempre nos capacitando internamente para dar conta de sistematizar, buscando aprofundar a reflexão e ir além do mero registro de atividades. Também é importante investir, individualmente, no desenvolvimento da capacidade de escrita. No âmbito do grupo, é fundamental realizar encontros para a validação do material. Esse nem sempre é o caminho mais fácil, porque ocupa tempo e o resto da agenda segue seu curso.

A – Um projeto de vocês acabou de ser adotado como política pública no Estado do Ceará. Depois de virar política, a sistematização continua?

IO – Claro! O próprio parceiro (a Secretaria de Educação do Ceará) pediu que nós sistematizássemos. De qualquer modo, só posso responder de uma perspectiva teórica, pois estamos vivendo isso agora e ainda não temos uma metodologia definida.

Mas posso adiantar que o caminho que estamos construindo, hoje, prevê o envolvimento da equipe do poder público, porque essa é a melhor forma da tecnologia ser incorporada no cotidiano deles.

A – Que cuidados são fundamentais nessa transição para a política pública?

IO – Nesta primeira fase, nosso papel é monitorar os avanços, com base em indicadores pactuados conjuntamente. Para isso, precisamos ter um material bem estruturado. Não adianta apresentar um material aberto, cheio de possibilidades de adequação. Isso, às vezes, prejudica o monitoramento e gera uma variação muito grande na qualidade do trabalho.

Ao mesmo tempo, entendemos que, quando a gente vai para a política pública, precisamos criar uma “outra coisa”. Não basta decidir que um programa vai se tornar política pública, porque isso é impor um modelo. Em lugar disso, a gente pode inspirar e aprender as possibilidades e os desafios inerentes aos sistema público, seja qual for a área de atuação. Com isso, o projeto adotado vira uma outra coisa, mais adequada ao contexto.

A – Então a sistematização deve partir do contexto e voltar-se para ele, não é isso?

IO – Qualquer sistematização precisa ser contextualizada e isso inclui pensar como esse conteúdo será trabalhado e disseminado, onde e por quem. E não estou falando apenas de projetos. Temos, por exemplo, o livro “Aprendendo a Ser e Conviver”, da Margarida Serrão, que sistematizou uma prática transversal. É um erro pensar que a sistematização deve servir apenas para divulgar o trabalho da organização.

A – Até pouco tempo atrás, por mais que acreditasse na importância da sistematização, as organizações sociais tinham dificuldade em captar recursos para concretizá-la. Esse cenário mudou?

IO – Ainda é mais fácil obter recursos para a execução dos programas. No entanto, os próprios financiadores já começam a perceber a necessidade de prever a sistematização desde o início, assim como a avaliação externa. No caso dos recursos públicos, a partir de determinado montante, isso é obrigatório. Então creio que está mudando, porque todo mundo ganha quando isso é feito, pois impacta diretamente na qualidade do projeto ou do programa.

{ Ficha da organização }

Instituto Aliança

Associação sem fins lucrativos, qualificada como OSCIP, tem como missão educar pessoas, organizações e comunidades para o desenvolvimento humano sustentável em âmbito nacional.

Fundação: 2002

Site: www.institutoalianca.org.br/